sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Haiti na televisão

A pobreza de linguagem dos nossos noticiários televisivos, pejada de metáforas de mau gosto e de boçal ignorância, torna-se insuportável quando aborda tragédias da gravidade da que atingiu o Haiti. Um despudor aleivoso vem ao de cima e fere a alma. Evidentemente, quem pode informa-se na net numa língua estrangeira e borrifa-se para a televisão. Mas, não pode tolerar-se que o noticiário descreva um país devastado pela criminalidade, o abandono dos servidores públicos, o saque e a violência (o Haiti tem 885 habitantes por km/2 e sofre uma catástrofe bíblica). Um noticiário de hoje chegou ao ponto de asseverar que no Haiti “não existem heróis, apenas desespero”. Tremendíssima falsidade, difamatória e tergiversante. Basta uma olhada pelas fotografias disponibilizadas na net, por exemplo em http://www.boston.com/bigpicture/2010/01/earthquake_in_haiti.html, para constatar que hoje, no Haiti, cada habitante é um herói, a merecer o nosso cuidado e consideração. Sejamos haitianos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O novo casamento

Em quase todas as questões somos empurrados para a bipolaridade de opiniões, antagonismo, dualismo, um processo redutor e manipulador que forma maniqueísmos e abafa o debate livre. A propósito do casamento gay, o vulgar cidadão é forçado a mostrar-se liberal ou conservador, mas, subliminarmente, é na verdade forçado a não ter posição sobre mais nada, e há muito a questionar sobre o casamento.

Dispõe o artigo 1577 do Código Civil que “casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código”. A alteração que se pretende introduzir copia a já vigente em Espanha e consiste apenas na eliminação da expressão “de sexo diferente”. Ressuma à evidência que, com tal alteração, não se permite apenas o casamento gay, mas todas as uniões entre duas pessoas, independentemente da orientação sexual, inclusive de qualquer intenção sexual ou de qualquer exclusividade da relação sexual.

Actualmente, é permitido o casamento de duas pessoas de sexo diferente ainda que não pretendam ter relações sexuais, ou mesmo que as pretendam manter com outros (o dever de fidelidade tem natureza interna e não pode ser sindicado por estranhos, sendo completamente irrelevante o adultério se ambos os cônjuges nisso consentirem). A alteração proposta amplia o leque de opções.

Dois velhotes num lar, tendo um direito a pensão de reforma e outro não, podem ser tentados a casar para que um deles passe a beneficiar da pensão de viuvez. Hoje, estes casamentos são frequentes entre homem e mulher; amanhã, podem ser celebrados entre duas mulheres ou entre dois homens. De igual modo, o casamento pode ser celebrado para obter ganhos no IRS (compensação de rendimentos e benefícios), na nacionalidade (aquisição e residência), no trabalho (direito a faltas para cuidar da família), na habitação (descontos nos encargos, candidatura a casa social, transmissão por morte, etc.), nas sucessões (o cônjuge é herdeiro em concurso com os filhos). Também pode ser celebrado apenas para partilhar a casa, formar uma economia comum entre dois amigos ou amigas, ou, já hoje, entre uma amiga e um amigo.

Evidentemente, tais situações podem ser constituídas para defraudar a lei (redes casamenteiras para naturalizar estrangeiros, burlas para prejudicar a legítima nas heranças ou para obter ganhos ilícitos da segurança social, etc.). Daí que os Estados tenham vindo a implementar esquemas de fiscalização e controlo do casamento, actividade que implica necessariamente a devassa da vida interna do casal. É esta a grande novidade da alteração à lei do casamento: a generalização da fiscalização da vida privada à casa de cada casal, muito à semelhança do que cada vez mais acontece na fiscalização dos cuidados com os filhos, com os idosos, com as mulheres, com a doença, etc.

O Estado venceu a última barreira da privacidade: a família. O controlo deixou de ser exercido apenas sobre o pai ou sobre a mãe, para se estender à própria existência do casal em si mesmo. É por isso que o casamento gay apenas tem sido adoptado pelos Estados que têm já em vigor sistemas legais de fiscalização e de sanção da fraude no casamento. Teme-se todavia que tais sistemas se aperfeiçoem e invadam mais completamente a vida de cada um.


Não vale contra argumentar com a normalidade (é precisamente aquela senhora que nunca dizia a palavra merda que mais corre o risco de ser processada por injúria: chama a atenção). O facto de te achares tão normal, ao ponto de não perceberes a diferença, assusta quem é capaz de reflectir. Os primeiros visados vão ser precisamente os gays, pelo menos os que não forem suficientemente independentes dos circunstancialismos sociais.

Os grandes prejudicados no imediato serão todos os que vivem em união de facto, instituto que tenderá a perder reconhecimento social face ao casamento. A união de facto é definida pela lei como a comunhão de vida "em condições análogas à dos cônjuges" e são essas condições que estão em transmutação, sujeitas a reconhecimento caso a caso. Será mais vantajoso o casamento, que aliás permite hoje uma desvinculação bem mais fácil e rápida do que a união de facto, que, nos conflitos, pode transformar-se num inferno judicial.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Para acabar de vez com o átomo

Foi estudando o pensamento dos primeiros filósofos gregos, os seus saltos imaginativos, que Nietzsche pôde entender e explicar o seu erro fundamental, ainda antes dos físicos quânticos: o átomo, enquanto partícula essencial da matéria, não existe. Uma vez tomado como tema científico, não pára de se decompor em partículas ainda mais ínfimas. Os mesmos gregos primordiais, pais da humanidade, acreditavam no uno celestial. A astronomia não deixou de perseguir essa via, da abóbada modal ou dimensional dos seres terrenos ao espaço etéreo do infinito. Paira hoje na encruzilhada dos seus mitos entre supernovas e planetas mistério, estrelas vivas e mortas, numa interminável série de corpúsculos inconjugáveis. Mas o uno persiste, entendido como perfeição, como entidade reguladora superior, que escapa à compreensão humana. O infinito é ainda ponto de partida, quando deveria ser ponto de chegada. Não se trata de um fracasso da ciência, que é sobretudo uma negação da filosofia, ou seja, uma negação da verdade. Dito de outro modo, a ciência recusa a imaginação, apesar das descobertas de Koch e de tantos outros serem devidas a nada mais que isso. A ciência depende da ignorância, está-lhe intimamente ligada, pertence-lhe, quer vencê-la. O labor do cientista nasce da ignorância e vive dela, ou não poderia sustentar-se sem ela. Também por isso vivemos numa sociedade orientada para o trabalho, que tem expressão mor na escola, essa instituição parasitária que explora a ignorância para a capturar e domesticar na vegetabilidade dos empregos, na empregabilidade, na dependência moral, na subserviência ao Estado, o pai da modernidade. Um professor, porque captura ignorância e despende imaginação dos seus alunos, é um crápula, do ponto de vista intelectual. Nem vale pô-los a versejar num jardim límbico, ainda assim crapuliza. O uno é uma tirania. A ignorância não se combate, suplanta-se, salta-se, imagina-se. Às urtigas, a escola e os profecas, em especial os bons (ah! A virtude do mau professor, aquele cheio de tiques de ódio e incompetência, esse sim, o que verdadeiramente nos ensina o lugar a que pertencemos: estrato tal na sociedade B! O seu filhote precisa de trabalhar mais! O crápula! O seu querido filho é muito bom aluno! O crápula! Mostra-me o teu, palerma, coxo). E se o evidente exagero das considerações anteriores sobre a escola escandaliza o teu sentimento científico, vai lá buscar os manuais do teu filho e verifica quantos erros lá estão transcritos e são diariamente impostos, contrários às novas descobertas ou invenções da ciência, para o que precisas de ter algum conhecimento adicional e, depois, precisas de bater com a mão na testa: baboseiras sobre a globalização e sobre a pátria, a ideia de progresso ainda tão nova como quando morreu em 1914, as placas terrestres terminadas e preservadas na eternidade das lavas, o aquecimento do planeta reduzido à fumarada das fábricas obsoletas, a reciclagem do plástico poupadinha, a genética una, fundamental, o fim último, terminal longínquo dos vindouros!
É sobre genética, que este artigo versa, precisamente. Novamente a ideia do uno, o erro primordial dos gregos que tomaram o pensamento nas mãos para se elevarem ao celeste. A genética, agora nas mãos sujas e grotescas de um laboratório farmacêutico ou de investigação pública, o que vale o mesmo, embora com resultados faseados diferentes. Os próprios crentes desvalorizam os fracos resultados da genética, que ainda falta a tarefa medonha de catalogar as proteínas, perdão, de catalogar a interacção das proteínas umas com as outras, em todas as hipóteses possíveis. Perdão, o tanas. A tarefa é impossível! São quatrilhões de hipóteses, e as conjugações que se descobrirem operatórias serão mero acaso, como o da penicilina. Pô-los a trabalhar a ver se calha alguma coisa de jeito, é uma coisa. Bem diferente é fazer-nos crer que podem chegar à totalidade do sistema entre moléculas e proteínas. Pura e simplesmente a genética é uma paragem no tempo. Assenta na crença de uma ordem básica das espécies, na evolução burriana que Darwin imitou do utilitarismo, no progresso da ciência que andaria mais depressa que os acasos geracionais. O gene corresponde a uma crença tão errada quanto o átomo. O esforço da investigação vai conduzir a resultados parciais fantásticos e de seguida descamba. Parte dos resultados positivos vai produzir efeitos colaterais monstruosos a longo termo. Todos sabem disso. O incrédulo tem a prova acabada desse medo nas comissões de ética que cerceiam a investigação. Esses grupos de sacerdotes, padres e cientistas e falsos pensadores, que não têm puto de vergonha na cara para se apresentarem a eles próprios como insignes mestres. A velhada nunca teve vergonha! Escamoteiam a verdade: não controlam a ética, controlam a ciência; dizem que a tarefa dos investigadores é científica, quando é política; fazem esquecer que se investiga o que é financiado e não o que é apontado como investigável pelos cientistas. Meu caros, a genética é o maior logro dos nossos tempos. Os seres multiplicam-se aleatoriamente, as células também. O organismo não existe, é uma crença tirada da organização do Estado. O único órgão que existe é o que toca música. Toda a panóplia de catalogação dos elementos do corpo decalca a organização da sociedade, primeiro nesta e depois saltou para a ciência: órgão/organização; função/funcionalismo; estrutura/estruturalismo; normal/anormal; estabilidade/crise (há lá ideia mais parva que a de crise?). E na ciência: estática, dinâmica, inércia, entropia! Baboseiras. Tanta asneira que nem deram nome ao sexo da mulher! Os pulhas! Que saborosos são os termos antiguinhos e populares, mas proibidos. Não estamos perante um avanço da ciência. É o aparelho do Estado que se alastra como um vírus marciano, da organização mundial de saúde à fao e à unesco, essas máquinas de subjugação das consciências, que põem à venda os corpos na praça incomensurável do sentimento mundano.
A reivindicação de uma medicina que regresse à atenção do ser, multidisciplinar e aberta ao desconhecido, representa a maior luta da humanidade nos tempos de hoje. É preciso abrir caminho para a afirmação do homem sobre os degraus do hospital moderno, que é a instituição mais segregacionista que alguma vez pôde ser imaginada. Nem a prisão ou o manicómio do século XIX, que Foucault decompôs para explicar o nosso tempo, atingiu tal patamar de diferenciação social e humana. A genética abre-se, qual crisálida venenosa, perante a sociedade do futuro. Redireccionar a investigação para o campo dos cientistas. Coarctar a intervenção do Estado e das grandes multinacionais. Extinguir o poder dos éticos, a classe dos subsidiados. Dar finalmente asas à criatividade, à imaginação. Eis os rumos que se impõem. Todos são sãos, independentemente das suas características pessoais. Todos os defeitos individuais são articulações do poder do Estado. Remeter o Estado ao orçamento de Estado, eis a tarefa.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Quercus e a ecologia da miséria

Não são precisas estatísticas de maior para tomar o pulso à disparidade de rendimentos em Portugal: basta acompanhar a série “Minuto Verde” no noticiário da manhã da RTP1. Em dias alternados, ora um sujeito gordo promove métodos de poupança de energia no aquecimento de vivendas de luxo ou sistemas de limpeza de piscinas privadas com recurso a algas e outros naturalismos, ora uma mulher escanzelada aconselha o uso de fraldas de pano, em vez das “poluentes” fraldas descartáveis e desce ao pormenor de, com idêntica finalidade, aconselhar as mães que amamentam a reutilizar os panos dos mamilos. Não se esquecem, um e outra, de realçar a “poupança” que se consegue obter com aqueles conselhos, com uma ingenuidade de antanho que faz acreditar que a senhora da vivenda poupa na conta da luz e na conta dos mamilos, ou que a mãe pobre tem piscina e gasta em fraldas. Há-de havê-las, são da Quercus, associação ambientalista que tem a responsabilidade daquele programa.
O higienismo, ainda que disfarçado de economia doméstica ou de protecção da natureza, é dirigido separadamente a ricos e pobres, trazendo ao de cima a cruel partição dos rendimentos. A vivenda, que destruiu os solos naturais, muitas vezes com aptidão agrícola, que tolhe as linhas de água, que se apropria da paisagem, a piscina, que delapida o recurso fundamental do século XXI, ambas construídas com materiais altamente poluentes, cuja produção afecta a natureza (cimenteiras, inertes, minas) passam por ser “amigas do ambiente” se tiverem painéis solares subsidiados pelo Governo ou uma área aumentada para respaldo das ervas, com o consequente reconhecimento do benemérito proprietário. Por seu turno, o bebé é um cagão poluente mais perigoso que os milhares de artigos de supermercados envolvidos em caixas, caixinhas e plásticos, as mais das vezes inúteis (mas úteis para reciclar, essa baboseira da política de hoje, que promove a conversão do desperdício em matéria-prima através de uma indústria pesadíssima e hiper-subsidiada, com avultados custos de transporte e de processamento, que o pobre e o rico pagam em igualdade (veja a factura da água)) e a coitada da amamentadeira nem um panito do mamilo pode desperdiçar, ainda que não ganhe um subsídio por isso. Falta-lhes dizer que a maior poupança ambiental é não ter filhos, deixar a vivenda devoluta e a piscina vazia.
A Quercus espelha a grosseria serôdia da ideologia que domina o país. Não é admissível a propaganda dum ambientalismo que vai contra, nos seus fundamentos e na sua execução, a qualidade de vida da comunidade e que desrespeita as pessoas, perante a discrepância de rendimentos que exibe, num miserabilismo perigoso, muito salazarento.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O poder da imprensa

O recente debate na RTP1 entre jornalistas que se acusavam mutuamente, invocando critérios deontológicos, da publicação ou não publicação de notícias encomendadas por fonte anónima (Diário de Notícias, que publicou o e-mail sobre a suspeitada vigilância do PS a Belém, Expresso, que não a publicou, e Público, que publicou e não publicou), tem resposta plena no aforismo 447 de “Humano Demasiado Humano”, que Nietzsche publicou em 1886:


O poder da imprensa consiste no facto de cada indivíduo, que se encontra ao seu serviço, apenas se sentir muito pouco comprometido e vinculado. Habitualmente, ele exprime a sua opinião, mas, um dia, também não a diz, para ser útil ao seu partido ou à política do seu país ou, por fim, a si próprio. Tais pequenos delitos de desonestidade, ou, talvez, simplesmente de um desonesto sigilo, não parecem graves para o indivíduo, contudo, as suas consequências são extraordinárias, porque esses pequenos delitos são cometidos por muitos, ao mesmo tempo. Cada um destes diz para consigo: «Por tão ínfimos serviços, vivo melhor, posso encontrar a minha subsistência; com a falta dessas pequenas atenções, torno-me impossível.» Porque, moralmente, parece quase indiferente escrever mais uma linha, ainda por cima talvez sem assinatura, ou não a escrever. Uma pessoa, que tenha dinheiro e influência, pode transformar qualquer opinião em opinião pública. Quem, nessas circunstâncias, sabe que a maior parte dos homens são fracos, quando se trata de ninharias, e quer alcançar os seus próprios fins por meio delas, é sempre um homem perigoso.


Moral da história: o diabo que escolha quem é mais perigoso, a fonte anónima que manobra a notícia ou o jornalista, que a publica ou não publica.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O que é o capitalismo

O capitalismo é um sistema que se resume numa frase: o dinheiro não chega. Há milhares de filmes com este tema: um casal apaixona-se e desavém-se porque lhe falta o essencial para o bem-estar (casa, trabalho, bens de consumo, viagens, liberdade). Ou então, anda feliz até encontrar uns tipos com falta de dinheiro que lhe fazem a vida negra. Os tribunais não versam sobre outra coisa: contas de telefone, perdas de património, chapadões caseiros e sacos azuis. Os ricos sofrem desalmadamente de carência financeira. Basta ver uma telenovela, com a família poderosa enrolada num problema sem solução. O supra sumo do capitalismo manifesta-se exemplarmente nos indigentes. Os que nada têm beneficiam de um programa de auxílio que os alimenta, no limiar de subsistência. Milhões de pessoas acantonadas em bairros sociais ou, bem pior, em campos de “refugiados” tomam a sopa e são seleccionados com pinças marcianas pelo sistema (um artola adopta uma criança, um cantor promove um single, um pau grande vai para a cidade, um meliante trafica, etc.). Os mais fortes vão para o exército ou para a polícia; os dóceis fazem trabalho comunitário, as mães criam, os pais fumam, a ONU queixa-se. Não há dinheiro. Os desempregados precisam que 23 buldozers destruam uma frente marítima ou um subúrbio para instalar um hotel ou um hipermercado. Cria-se emprego. Ganham acima do mínimo no primeiro ano. Um tipo inteligente selecciona o investimento graúdo, de acordo com o grau de destruição da natureza. Se criar suficiente emprego, o investidor pode ser subsidiado e tem carta amarela para eliminar os ratos das redondezas. As grandes empresas assim instaladas depressa descobrem: o dinheiro não chega. Ameaçam fechar e fecham. Subsidia-se a divisão do terreno para criar emprego. Nesta altura o governo é outro e tem uma política belíssima de renovação do emprego. A todos os desempregados, pensionistas e pobres a quem o dinheiro obviamente não chega, é prometido um futuro garantidamente flutuante, sobre um tapete de dinheiro insuficiente. As meninas da escola competem entre si em silêncio. São as únicas que sabem como podem escapar à dependência. A nota dá-lhes acesso a uma carreira, em posição vitalícia. Por isso marram e marram. Parecia a felicidade. Afinal, um dia, a nota não dá emprego. Tentam foder, mas não dá dinheiro. Vão para recepcionistas do congresso, fazem um estágio gratuito na UNESCO, conhecem dezenas de pirulas colocados na alta administração e nas empresas. Casam bem, têm três filhos de uma vez. Ah! Que bom. Um dia descobrem que o dinheiro não chega. O pirulas perde o emprego ou arranja outra. A grada função que têm desempenhado não retribui o bastante para suportar a escola privada do menino. Três outros pirulas andam só a papar, sem prometer nada. Um desespero. Por fim o preto, de ténis de marca americana. Ela perde a cabeça e entrega-se. Perdoa-se o mal que faz pelo bem que sabe. Disfarça. Os pirulas desaparecem, um para Angola onde arranjou um contrato que o vai tirar de agruras, outro para a terra, a gerir as heranças dos pais, dos avós e dos tios, absolutamente desenrascado mas murcho, o terceiro com uma estrangeira pobre que ama desalmadamente. O preto arranjou uma velha rica e dezasseis amigos do bairro social. É então que ela começa a fazer reiki, a gerir o tempo de trabalho com sisudez e a desconsiderar as colegas do serviço, aquelas tronças hipócritas, dito que remoçam de si para si umas para as outras. O administrador do condomínio pede obras no prédio. Cancela a viagem a Cabo Verde. Bolas, o dinheiro não chega. Olhando para toda a tua vida, nem as fodas escapam: o dinheiro esteve sempre presente enquanto problema. Até o Donald Trump, quando topou aquela miúda super gira, perdeu toneladas de massa. Não se pode tirar o olho do negócio. O rico precisa de tempo para conservar o dinheiro, que o mesmo é dizer, aumentar o pecúlio. O aumento dos ganhos é sempre relativo. Vem uma crise e o valor desce para metade. Fala-se com o Governo, subsidia-se as eleições, faz-se uma auto-estrada, aperta-se o cinto, obriga-se os outros a apertar o cinto, aumenta-se os preços, vende-se menos, compra-se menos, enfim, um sufoco. Vai-se para Veneza de paquete, a descansar. Veneza está pelas horas da morte. Caríssima. Até aquele empregadote dos quartos achou pouco a nota que a velha lhe deu. Não sei onde isto vai parar, para já. A pele envelhece, vou para a ginástica, aquela aula que frequentava, tão gira, já não se faz. Agora o sistema é outro, mais caro. Procuro cremes anti-rugas, os melhores claro. Há um com algas naturais de coral da ilha mais pura do Pacífico que custa quase o mesmo que um Fiat Panda. Ai, quem me dera tê-lo. Assim se vai o dinheiro. Não, preciso defender-me. Os empregados este ano não têm aumento. Besteira! Aumento-os, se trabalharem mais. Assim como assim, o dinheiro não chega. O empregado adestrado à cadeira progride pelo ascensor acima e volta para casa às 18h. A mulher chega depois, que vai buscar os filhos à escola. No final do dia, sentados frente ao televisor, disfarçam um beijo. O tipo diz, tou farto de ver ricos com problemas! E vai para o computador ver gajas esporradas, sem pretensão de tusa, mas de sono. A mulher suspira com uma visita à aldeia dos pais. Quem me dera a reforma, que aqui já não estava. Recebe o telefonema do filho que está no primeiro ano do primeiro emprego: o dinheiro não chega. Telefona para a Cofidis, para quem o dinheiro chega sempre e depressa. Pela manhã diz ao marido, como quem não quer a coisa, O João precisa de dinheiro, pensei na Cofidis. E ouve apenas, temos de pensar nisso. Os dias passam. A mulher opera sozinha com o telefone e desenrasca o filho. Um dia a conta bancária sofre um baque. O tipo, irado, barafusta: eu não tolero isto. E sai porta fora. Três meses depois estão divorciados. Duplicam a despesa, duas casas, dois carros, contas de telefone, água, luz, gás, namoros, jantares, etc. Felizmente o pai dele morre. Muda-se para a casa vazia, diminui a despesa. Dá-se conta que já não rende na cama, deixou de fumar, faz dieta, sobram-lhe uns trocos, e ajuda os filhos, em particular o João, agora a constituir família, com muitas dificuldades de dinheiro, que o emprego na Caixa é bom, mas não dá para tudo.
Nesta história já temos, pelo menos, três velhos. Velho é aquele que vive à conta do Estado sem trabalhar, mas com direito próprio a pensão. Com os descontos que fizeram, chega perfeitamente para as despesas. Viajam na INATEL. Vão aos bailes da associação. Apoiam muito o presidente da Câmara, sujeito atencioso. Um belo dia, um tropeça, outro sofre dum inchaço na barriga, outro tem um AVC. O dinheiro não chega. No hospital não prestam assistência suficiente. Sabem de uma clínica, caríssima em Barcelona que os põe como novos. Mas chegar lá! Tristes vidas, sempre a precisar de dinheiro e sem o ter. Donald Trump, pelo contrário, queixa-se dos cuidados em conservá-lo. Não pode passear no parque, com medo dos sequestros. Não pode falar à vontade sobre o Governo, com medo das represálias nos negócios. A mulher, lindíssima, não tem tempo para ele, mas montou um sistema de vigilância, a ver se o caça com outra. Passa o dia a dar ordens por telefone. Cada ordem é um Karma negativo na próxima vida. Logo agora que começou a acreditar nas reencarnações. Substitui o sistema de chefia directa, por administradores delegados bem pagos, que apenas reportam os resultados financeiros. No último ano perdeu metade da fortuna. Envelheceu, ou morreu ou vai morrer, caga bem ou com dificuldade, um bacano. Se dividir o dinheiro pelos conhecidos, cada um compra um Fiat Panda. Que diabo! O dinheiro não chega para um Rolls Royce. O dinheiro é um trauma. O sistema capitalista é isso mesmo, um dispêndio imenso de dinheiro, de energia, de natureza e de paisagem ecológica, uma morte anunciada. Se eu mandasse, acabava com o dinheiro.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A Lista Negra

Há qualquer coisa de panasca na lista negra. O esquecimento é um dom, como Nietzsche ensinou. A força que se exerce enquanto tal é por si mesma destituída de memória. O alinhavo é circunstancial. Já o registo calculado dos sucessos é operativo. A lista negra difere da relação de factos pelo fim personalizado que visa atingir. A taxação dos indivíduos, seja pelo item familiar ou de jardim-escola, seja pelo quadro socio-político ou pelos acasos em que intervêm, descontextualiza e desestoriza. Dirias que seria mera consequência de uma tentativa de carreirismo. Mas enganas-te. A lista negra exige um coca-bichinho: um espírito recuado, fingido, oportunista, uma picha curtíssima, um ressabiado a saborear uma lenta vingança muito ocasional. E que, no entanto, cresce. Um golo de belo vinho entornado sobre uma mesa de requinte que se vai espalhando e infiltrando, ajavardando a madeira. A lista negra é uma doença. É um socialitismo tosco que se alambaza de um Estado dormente, mas envolvente como um lençol quente e húmido. O panasca da lista negra é um deficiente por falha de capacidade de renovação vital. Em vez de esquecer os sucessos, guarda-os; em vez de se recompor, recobra; em vez de se afirmar pelo que faz, afirma-se pelo que faz aos outros. Para ele não há história, há mesa de mistura e manetes estacionárias. É identificável pelos lábios inexpressivos, pelo olhar sempre indirecto, pela dobra do rosto quando confrontado, pela busca da posição de poder, ainda que agachado. E que, no entanto, cresce. Cada vez são mais. A lista negra alarga-se sob as suas mãos finas, quase secretas, onânicas. Dirias que também as há azuis, brancas, vermelhas e etc. Mas enganas-te. Todas as listas são negras. O panasca da lista negra é destituído da sensibilidade das cores, que também é a sensibilidade do amor (seria possível o amor sem o esquecimento?). Os indivíduos são registados a preto (preto memória, sem tinta) e apenas diferem entre si pela ordem das colunas e pelos itens castratórios. Tu, não tenhas ilusões, estás na lista negra, pelo menos numa. Olhos perscrutadores, prodígios da creche (ah, esse ressaibo inigualável dos tempos da creche que recalcitra perpetuamente os panascas da lista negra!), observam tudo e todos e catalogam, vigiam, aplicam e castigam. É a tarefa dos panascas da lista negra. São tantos e tão poderosos que apenas podemos esquecê-los. Esse, o dom que nos foi concedido. Como pardais, tenhamos porém presente a memória da perseguição: triste destino o dos pardais que o ignoram. A lista negra é uma arma de caça. Tem os seus guardas, os seus esbirros, os seus algozes, e os panascas pardacentos que, muito demoradamente, a elaboram. Carreira: palavra a abolir. De ora avante dir-se-á apenas caminho. Carreirismo passa a caminhismo. Não tropeçamos. Nunca apontes o pé que te rasteira. Olha em frente, segue, diminuído embora, não balbucies. Já estavas na lista negra, continuas pardal.