quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Contribuição para acabar com a República

No Estado contemporâneo tudo é economia; a governamentalidade, o bom governo, sustenta-se no racionalismo económico, na optimização dos recursos. O justo reporta-se à equidade na distribuição da riqueza, mas é suplantado pelo critério da legitimidade dos ganhos e da acumulação. A coesão social, o interesse colectivo, assenta no ideal de enriquecimento individual e de melhoria do bem-estar geral.

O Estado actual, no modelo ocidental do pós-guerra, não é pois republicano. A República, no sentido clássico, é a sociedade baseada na ética, em que o cidadão encontra a máxima realização pessoal pela plena participação no colectivo. Aí, as leis, como a economia, estão subordinadas a princípios éticos e morais que configuram o bem colectivo. Este ideal formou-se a partir dos séculos XIV e XV, quando a política deixou de ser “uma função externa dirigida para a tutela da sociedade do “mal” que a agride, para assumir uma função interna que tende a formar e regulamentar a pessoa, o indivíduo” ( Paolo Prodi, Uma História da Justiça, Ed. Estampa, p. 173)

Enquanto no Estado actual a educação visa propiciar agentes económicos independentes e altamente produtivos, na República a educação formaria cidadãos livres orientados pela virtude. No primeiro, os cidadãos dependem das agruras ou do sucesso do mercado; no segundo, o Estado deve assegurar a liberdade dos indivíduos, libertando-os da opressão, de modo a não prejudicar a sua plena integração social.

O ideal republicano morreu na I Grande Guerra, onde milhares de jovens europeus, imbuídos do espírito da pátria republicana, se entregaram voluntariamente às ordens de generais obtusos e cruéis, verdadeiros precursores dos fascismos que se lhe seguiram (lembrar por exemplo Guillaume Apollinaire, o autor de “onze mil vergas”), cuja escola militar de imbecilidade grosseira deu larga margem de manobra aos exércitos de Hitler. Das cinzas da II Grande Guerra, brotou o neoliberalismo, o Estado mitigado pelos interesses económicos. O ideal subsequente é puramente niilista: a busca da espiritualidade no vazio meditativo, na experiência transcendente (eloquentemente figurado em O Fio da Navalha, de Somerset Maugham); ou o hedonismo consumista, incapaz de se relacionar com o plano superior da realidade (muito representado no cinema de Hollywood).

A I República portuguesa de 1910 tem sido tratada com panos quentes por muita da nossa historiografia. Teria um projecto de modernização e de democratização, oposto à “ditadura” franquista e ao rotativismo dos partidos monárquicos. Porém, se a monarquia excluía dos censos eleitorais cerca de 95% da população (os analfabetos, os não proprietários e as mulheres), as sucessivas reformas da República, não incluíram mais de 11%. Segundo Rui Ramos, seguramente o maior historiador português da contemporaneidade: “O Estado Novo tem muito mais a ver com a República de 1910 e a admiração da gente do PRP pelas ditaduras de “salvação nacional”, do que com o liberalismo da monarquia constitucional” (in "Oliveira Martins e a ética republicana, p. 168, http://www.penelope.ics.ul.pt/indices/penelope_18/18_09_%20RRamos.pdf, texto fundamental de Rui Ramos, pouco conhecido). Na recente e premiada História de Portugal, Rui Ramos torna a explicar (como na História de Mattoso) que, apesar de minoritários, os republicanos, sobretudo do PRP, reservaram para si os cargos do Estado, não obstante as disputas acérrimas que travavam. Acrescentamos nós: Afonso Costa, tal como Salazar, apostava no equilíbrio orçamental, o que, na época, constituía um traço dos governos conservadores e, posteriormente, totalitários. Não foi à toa que idolatraram o Marquês de Pombal, o déspota violentíssimo, patrocinando o governo da elite iluminada.

O colonialismo foi um dos estandartes da I República, que aliás arvorou contra a monarquia, aquando da questão do Mapa Cor-de-Rosa e aquando do Ultimato. Uma ideia de império ultramarino que casava com um nacionalismo ideológico, apregoado nas comemorações camonianas e na celebração do Marquês de Pombal. Está bem expresso na construção do Panteão Nacional, reservado aos heróis da Pátria. E foi materializado na participação de Portugal na I Grande Guerra, exclusivamente justificada pela necessidade de preservar as colónias das ameaças de ocupação pelas potências beligerantes. O Estado Novo colheu aí, sem originalidade, os pressupostos e as restrições da política que aplicou às colónias. O modo aviltante como a República tratou os soldados de La Lys e a repressão absurda e brutal que abateu sobre os operários, com base numa GNR deliberadamente formada por beluários, ultrapassou a violência do fascismo português, mesmo nas suas fases mais duras. Deve ainda acrescentar-se que, sob o salazarismo, os republicanos, tendo à cabeça António Sérgio, não defenderam mais do que uma tecnocracia nacionalista, tendo pugnado por planos de controlo da população que, se aplicados, teriam tido efeitos desastrosos (como o projecto de “colonização do Alentejo” com deslocação forçada de camponeses do Norte). Aquele tipo de república de princípio de século XX, afinal uma técnica de conquista do poder, manchou na época toda a Europa e não houve país que não tivesse sofrido penosamente com ele.

Efectivamente, nada temos a comemorar da I República. As celebrações do centenário, promovidas por gente que acha que “a República instaurou a igualdade e a cidadania plena” (falácias toscas de comissionistas tout court, pois a monarquia constitucional já as assegurava nos moldes constitucionais que hoje conhecemos) são estranhas, muito estranhas. Falta de sentido crítico, promoção de um ideal pátrio esgotado (tal como o hino), engajamento político ao sistema neoliberal actual, invocação de uma ética republicana vazia de sentido, enfim, contradições…

O temor que os republicanos clássicos evidenciavam do capitalismo e do controlo do Estado pelos interesses económicos, tornou-se hoje a base da operatividade da política. O domínio público é assustadoramente concessionado à gestão privada e os bens colectivos são comercializados na óptica do utilizador-pagador (matéria que abordaremos num próximo artigo). A comunicação social que, na lógica republicana, deveria ilustrar e preparar os cidadãos para a participação pública, veicula o medo dos desastres e do agravamento da crise, numa linguagem conotativa que impede a percepção da realidade. Os assuntos elevados do Estado são, com laivos de “sentido de Estado”, retirados da “praça pública”, ou seja escondidos dos cidadãos (a crise da banca, a real situação das contas do Estado, do rating, dos submarinos, da imensidade de questões que nos afectam, incluindo a eventual falência de clubes de futebol, não pertencem ao conhecimento do povo). As questões políticas de fundo são subordinadas ao segredo da economia.

Estaremos muito longe da sociedade ficcionada no Robocop (o filme), em que todo o Estado estava privatizado e toda a gestão pública dependia do critério da maximização do lucro. Também não se descortinam alternativas sólidas ao constitucionalismo e à cartilha dos direitos do homem, embora sejam hoje largamente insuficientes e tenham perdido o fundo ético. Mas urge pensar a Europa, à luz dos princípios democráticos que o neoliberalismo absorveu, o que parece implicar, como ponto de partida, o enterramento da república do século XX (não nos referimos ao regime político, à organicidade do governo e à partilha de poderes). As novas tecnocracias e as redes, diríamos até, os rizomas, que entrelaçam o indivíduo no social e no político podem prescindir da privatização da gestão do bem público e podem alicerçar-se numa ética a fundar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Mulheres na Justiça

“Mulheres em Atenas”, a tese de doutoramento, doutíssima aliás, da professora doutora Ana Lúcia Curado (Sá da Costa Editora, 2008), percorre as fontes escritas gregas que sobreviveram até os nossos dias reportadas à situação social, familiar e política das mulheres. Parece assumir um cariz marcadamente exegético. Não segue a antropologia, pelo que fica um pouco limitada ao teor dos textos. É omissa, por exemplo, sobre as questões da vida sexual, íntima, da reprodução e da saúde. Também não actualiza as obras de Foulcaut e outros sobre a sexualidade antiga. Constitui porém um importante manancial do direito, dos valores e do léxico da civilização mãe. Talvez se perca um pouco na discussão de casos, salvo no interessantíssimo “Contra Neera”, a mulher sedutora por excelência. Mas lê-se como tremoços, apesar da linguagem erudita, num estilo que parece tributário da grande, genial, superlativa Maria Helena da Rocha Pereira (se ainda não a leu, leia tudo o que encontrar com a assinatura dela), que prefacia Mulheres em Atenas.
Todavia encontramos um inesperado interesse nesta obra, pois a autora escuda a sua feminilidade nos rigores clássicos, enquanto expressa valores opinativos sobre a retórica judicial grega e actualiza a condição humana, socorrendo-se de Kafka e Lawrence, entre outros. Nalgumas passagens, não é fácil perceber se as considerações foram extraídas de Atenas ou se correspondem ao entendimento universal da autora. Supondo que “num discurso de índole judicial os elementos referenciados não são lançados ao acaso”, admite que visem “baralhar os factos em causa e o júri que os há-de julgar” (p. 419). As peças da acusação e da defesa “estão ao serviço de interesses privados”, pelo que as descrições podem estar afectadas de “exagero hiperbólico” (p. 457). A intérprete deve escrutinar o discurso em função do pedido formulado pelo orador, desmontando a argumentação, limando os excessos, sobrelevando as omissões (pp. 283, 341, 350) e os entinemas (p. 288, interessante conceito retórico). Busca a verdade, segundo um interesse maior, exterior ao litígio tal como as partes o apresentam. O julgamento das provas não se prende à comprovação das alegações, mas é elevado ao serviço dessa verdade superior a que só a intérprete tem acesso. A opinião final da intérprete é relativizada de acordo com a exiguidade das fontes e com a incerteza parcial dos factos.

Tergiversamos, sem pretender diminuir o notável mérito da autora, da esfera classicista e da análise retórica para aquele aspecto, que parece tão feminino, da faculdade de inferir com segurança a partir de meros indícios, inclusive em matérias para as quais as fontes de informação não estão direccionadas. A sociedade do nosso tempo organiza-se em torno de um método de inferências auto-justificantes que ganham expressão através de actos de poder. Que há de mais feminino do que aqueles generais à escovinha em permanente reunião numa enorme sala penumbrosa fazendo-se gestores dos céus do Iraque? Mas descendo à terra, não terá sido um golpe de génio prover os tribunais de mulheres juízes, formando-as aí desde jovens, enquanto meio de suprir as deficiências da investigação criminal e de aproximar os litígios da verdade última que é o puro consumo? Inclusive o consumo de informação estatística e esse consumo grosso das mulheres que é a classificação de serviço!

Derrida fez uma série de conferências sobre o fazer direito instantâneo das sentenças judiciais, quase se ajoelhou perante tal mistério. Na verdade, a sentença condenatória “é um puro acto instantâneo ou um atributo incorporal” que transforma o acusado em condenado (Deleuze, Capitalismo e Esquizofrenia 2, p. 114). A sentença, cumpridas as formalidades, nunca é arbitrária pois beneficia desse poder de fazer o justo, de dizer a verdade ou a verdade possível (a verdade é o que a sentença diz). Uma das formalidades desse dizer consiste na qualificação dos interesses: o interesse das partes não é o que eles alegam expressamente, mas o que resulta da interpretação do juiz. Também os factos que invocam têm de ser esquadrinhados em função da descoberta do fim último dos interesses, e realinhados de acordo com o interesse superior que é, simplesmente, a expressão da sentença. Os nórdicos não escondem o efeito de exclusão da sentença condenatória, tornam-no até o cerne da discussão, e não se enfeitam de vestes pesadas. A tradição românica é mais folclórica, mais expressiva, com muitos exórdios ao justo.

Um tipo normal, lendo kafka e Lawrence, sentiria náuseas dessas inferências judiciais, abominaria os juízos destrapaceados sobre o íntimo dos outros, abominaria supor “o que ele realmente quis foi enganar-me”, e fugiria desse mundo escuro, de vielas e trincheiras, onde o eterno feminino faz o direito e limpa a terra do seu esterco, a bem ou a mal. O golpe de génio que alterou as regras do jogo à escala mundial e suprimiu os juízes de condição inferior que outrora julgavam as baixezas, bem como dispensou o júri, essa expressão maior da cidadania, tornando a justiça prática, limpa e absorvente, assenta no facto de o feminino não tomar consciência de que não pode lavar as mãos que suja quando julga, quando simula a verdade, instituindo-a mesmo, ainda que acerte, mas ai quando falha! O feminino deixa-se levar pelo gosto da inferência, pelo olhar de espanto daquele que julga ter desmascarado.

O jardim-escola não permite, hoy por hoy, distinguir entre homens e mulheres no exercício da justiça. A regra da inferência fundadora da punição tornou-se comum, as mesmas regras do recreio, certinhas; uma certa desconsideração pelos estranhos, própria dos meninos e meninas.Juiz ou juíza, pelo menos a sentença é (quase) sempre feminina.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

ALLgarve gera polémica

A expansão da marca ALLgarve está em risco depois de Sebastião Benquisto, chairman da SeaLife&Funny, ter declarado que "não descarto a hipótese de a ALLqaeda vir a adoptar o nosso figurino". As autoridades americanas retiraram de imediato os projectos previstos para ALLabama e ALLaska. Eduardino Lusitano, presidente do Gabinete Organizador da Marca Allgarvia, confessou-se consternado, mas não derrotado. A parceria com a Sea Life&Funny, prestigiada empresa no segmento de marketing, está a ser reponderada. Eduardino Lusitano prefere realçar, para já, o excelente desempenho da SeaLife na adaptação do conceito a ALLmancil e no incremento das negociações com o município de Almada. "A candidatura de ALLmada abre boas perspectivas para o mercado interno", salientou.

Fuzeta: tira-se o chapéu

Espectacular trabalho de reabilitação da Ilha da Fuzeta. A praia da ilha está óptima, muito melhor que a do Ancão. Tira-se o chapéu. E se for levado até ao fim, como parece, far-se-á vénia. A nova barra precisa de molhes de protecção e a Praia dos Tesos de um novo lençol de areia. A ver se a onda não pára. Para já, parabéns aos técnicos e autoridades. Correm riscos bem calculados, e contam connosco.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sida: o Gel da Serpente

Há coisas muito actuais que fazem lembrar o Ovo da Serpente, o polémico filme de Ingmar Bergman.

A primeira é a estonteante facilidade com que a comunicação social dá eco, ad nauseam, de qualquer notícia que emane de fonte de autoridade sob matéria de interesse relevante. Propagação acéfala, acrítica, imponderada, muitas vezes mera reprodução dos comunicados de imprensa de organismos politicamente activos. Em tais casos, cabe perguntar para que serve a imprensa. E percebe-se que serve para corroborar, directa ou indirectamente, o efeito que alguma entidade pretende produzir, levando ao convencimento do público, tanto através da credibilidade de que ainda desfruta entre os incautos, como talvez mais ainda pelo cansaço da repetição inútil.

Fazendo tábua rasa dos ridículos géis de outrora (espermicidas e bactericidas), surge agora um estudo que anuncia um gel que permite a 54% das mulheres que o usam rigorosamente duas vezes por dia evitar o contágio de HIV em relações com o parceiro habitual.  Se o usarem mais de 30 meses seguidos, o gel perde a eficácia. Se o usarem apenas em 80% das relações a percentagem baixa para 29%. A experiência fez-se na África do Sul com um  grupo de 450 mulheres casadas cujos maridos se recusam a usar preservativo. Aquele grupo foi comparado com outro de iguais características a que foi ministrado um gel sem efeitos medicinais, mero placebo, e que desconhecia este facto. Neste segundo grupo, a incidência de sida foi de 60 casos, face a 38 casos no grupo com gel anti-viral.

À vista desarmada, parece que 60 para 450, não difere muito de 38 para 450, quando se está perante uma doença mortal: uma relação de 13% para 8%. A diferença pode dever-se simplesmente à maior ou menor promiscuidade dos homens ou ao maior risco assumido por alguns deles, sendo de todo impossível avaliar comportamentos privados em pessoas não sujeitas à experiência (que visou apenas as mulheres).
Mas é chocante admitir que tantas mulheres estiveram enganadas com um placebo, durante tanto tempo, quando bastaria controlar e identificar o grupo para garantir idêntica estatística. É muito chocante constar que 60 mulheres contraíram a doença, crendo que o gel as poderia proteger! É uma experiência macabra, violenta, manipuladora, que despreza o bem precioso da vida. Um sacrifício que ombreia com o médico nazi do Ovo da Serpente.

É ultrajante que o combate à doença não enfrente os preconceitos discriminatórios vigentes em muitas comunidades africanas, e procure adaptar a medicina e a saúde a comportamentos de exploração do trânsito sexual, a menosprezo da dignidade das mulheres, perante o marido relapso e inconsequente. Sabe-se que a incidência da sida é directamente proporcional à falta de liberdade e de auto-determinação sexual, quantas vezes acompanhada de situações de pobreza grave, opressão e violência. Uma sociedade assim não é machista, é paranóide e auto-destrutiva. Um Estado que contemporiza com tais desmandos, que não enceta campanhas, hoje tão banais, de informação e divulgação, de distribuição de preservativos e de perseguição dos contaminadores intencionais é um Estado que tem um óbvio interesse na degradação da sua própria população, que vive do flagelo e encontra nos seus efeitos forças para se impor e quebrar resistências. A África do Sul é um estendal infindável de Apartheids, a que é preciso pôr cobro.

Não. Efectivamente pretende-se atingir um objectivo ainda por esclarecer. Se se somarem as notícias de que, crendo que reduz o risco de contágio de HIV, Bill Gates financia a circuncisão em África, tendo sido já realizadas cerca de 60.000 intervenções, e se se investigarem os boatos de que se propõe desenvolver vacinas que reduzam a fertilidade humana, com o propósito de reduzir a população mundial, temos de achar, sem medo de conspirações, que algo de não revelado se vai fazendo, com o apoio dos governos mundiais. Note-se aliás que África nem sequer é um continente com problemas de sobrepopulação e que tem riquezas naturais imensas sub-exploradas.

Para já, seria tão bom que conseguissemos voltar a ter imprensa!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Faro, o esplendor em estupefação

Não haverá terra mais bafejada pela natureza do que a Ria Formosa. Clima espectacular, praias longas, espelhos de água rica de vida comestível, pacatez, campo de frutos únicos, romãs celestiais e nêsperas cupidianas, figos entumescentes, que brotam de árvores morrendo sem cuidado algum do humano vegetante.

No entanto, conseguiu-se tornar a Campina numa das zonas mais poluídas da Europa por nitratos de origem agrícola (vide inag.pt). Perde-se a actividade agrícola, esquecem-se os primores que fizeram a fortuna do Algarve. Sabe que Eugénio de Almeida, o homem mais rico de Portugal de oitocentos, engrandeceu com o comércio de frutos secos destinado a América? Inesquecíveis amêndoas macias e doces hoje substituídas pelas californianas, dedosas, duronas, indigestas a partir da sétima.

A ria que limita Faro é um paraíso de canais encantatórios, bordejando as margens barrentas da cidadezinha, onde se acumula lixo e animais mortos. Botes anados labutam contra os cabeços da vazante, aguardando a esporádica pescaria no canal grande. Consideram-se privilegiados os que têm embarcação ancorada na marina fotogénica, embora não consigam sair ou entrar acima de meia maré por força da ferrovia centenária.

Os farenses, sempre avant la lettre, acham que é mais fácil arrancar a linha do comboio inteira do que imaginar uma solução para a passagem dos barquitos. Há cinquenta anos que o acham, intemeratos. Os derrotistas, assustados com as intempestivas proibições de circulação na ria e na ilha, acham que já não vale a pena ter barco. Os investidores alimentam, pelo contrário, planos de uma marina contada, coisa que em Portugal consiste nuns passeios largos com palmeiras, bancos de granito, esplanadas, um hotel de apoio, três concessões de restaurantes caros e alguns barcos duns tipos que a gente não conhece. Qual barcos, qual quê! Ao povo bastam os automóveis e a ria fica reservada.

Comparada com aquelas pequenas cidades de Trás-os Montes, tão ufanosas e apirolitadas, Faro assusta de atraso e degradação, ruínas, sujidade e caras trombudas de maus modos e olhar ostensivo. Tenha-se presente que, a seguir a Lisboa, Faro tem o maior indíce de pagamento de IRS por habitante do país. Será terra de gente rica, quiçá.

Quando parece que algo de novo a suplanta, como o bunker do teatro, logo se vão chegando às restrições, às exclusividades, às coisinhas giras, à música de boas intenções que não pára de prometer dias melhores. Até o raio do cartaz que pespegavam na gigantesca parede fronteira do teatro foi substituído por um placard publicitário electrónico que muda tão rapidamente que não se aproveita uma imagem, sequer de publicidade a pneus, um desconchavo que lá põem.

Deve ser uma terra desagradável para a maioria dos que cá vêm trabalhar, pois, logo que os deixam sair dos empregos, preferem meter-se na 125, à compita pelo direito de dominar as rotundas com os carritos adoráveis que conduzem. O exercício de tal direito dá-lhes um gozo tão grande que mantêm um ar paciente enquanto esperam longamente pela vez.

Nestes dias de calor ainda sem férias a praia de Faro enche-se de corpos lindos, garbosos, alegres, um must! Pena a porcaria da areia que de poeirenta se vai emporcalhando dia após dia. A não perder, a ronda de moto quatro que percorre a zona concessionada, por entre crianças brincando, jovens jogando e senhoras a caminho da toalha, com um marinheiro tipo Querelle acoplado num banhista condutor, ambos muito seráficos, compenetrados e incomodativos para os demais.

Um pouco mais longe, é obrigatória a Culatra, a aldeia da ilha de areia, com um povo sepilhado a vento e sol, agora ameaçado de destruição pela especulação imobiliária, que parece que não há quem não queira uma barraca de praia permanente. Se não forem destruídos por aí, são-no pelas regras de controlo: quem tem casa em terra, herdada ou não, perde a da ilha! Regra arbitrária e obviamente injusta, que ignora a comunidade. Lá se desenrascam a dividir famílias, a dizer que esta é só minha, ainda em sufoco, ignorando o dia de amanhã.

Faro, no entanto, resplandece. E não há estupefação que resista a uma ténue aragem de maresia, numa manhã quente mirando o mar, à espera do peixe assado, de que Faro é a verdadeira capital.

domingo, 4 de julho de 2010

Para acabar de vez com “Câmara Clara” e outras tretas da RTP

Pouco há de mais triste do que assistir ao anúncio público de que um velho não é virgem e mais triste ainda se é um poeta e o diz na própria pessoa. A virgindade seria sim uma imensa abertura para um mundo novo, uma recriação verdadeira da alma prestes à consumação, como Inês perante Tristão. Agora um velho que esteve em Londres quando novo e faz uns versos, que hoje é uma prosa graficamente sincopada, curta e de segredos escondidos, como um gato de bigodes longos e farfalhudos à espera da deita da dona para se lançar sobre os copos sujos da cozinha, esse velho de queca recordada, babujona, parece-se com um porco de dentes lavadinhos, sem a esponsal de circunstância de tempos idos, idos, idos. Ah! Quem dera a pureza intocável de um basculino estumescido, mãos arrepiadas sobre os lençóis e os olhos fitos no pecado que esvoaça pelas vielas esconsas. Nisso, Virgílio Ferreira continuará imbatível. Um poeta virgem, por fim o milagre. Um poeta é um aldrabão, tudo bem, mas se gabarola, é uma rolha!


Que há de mais triste do que essa conversa de que fui feliz em Londres, que andava descalço e esfomeado, com fartura de gajas. E a cultura, o museu da porra onde as engatava e o livro no jardim, mesmo à chuva, por onde ela passava e se admirava da minha persistência no livro e no seu caminhar e no pão quentinho que me matava a fome no seu quartito ridículo onde me abraçava e mimava. À porta de qualquer liceu três pretos, que podiam ser brancos, discorrem sobre as distintas calosidades de todas as pachachas do mundo com maior profundidade boceira que esse poeta de pés curtos e verve dormente, que não se cala sobre um passado mesquinho de pão e calor.

Que há de mais triste, sendo porventura poeta, que passar a vidita a desditar a melosa de pechisbeque que sim que também ela pode sentir a profundidade inigualável que o levou à viagem insuperável da escrita sobre os corpos pobres das sopeiras de Londres, sobretudo se se calar e der ao trabalho de ouvir os convidados. Sextas-feiras de borracheira supridas por recolhimentos necessários no tal quartito, uma vez ali, outra vez acolá. Ah! Quem me dera o cuartito 22 de La Sonora Matancera!

Há ainda uns tipos a lerem num visor que na sala está onde nós estamos e ainda assim não sabem onde pôr os braços e os movem como autómatos com olhos de borracha e líquido para chorar. Amanhã não perca, perca do Nilo! Mais uma conversa mole dum tipo de dentes perfeitos que consegue articular com os lábios cerrados, um prodígio do monocórdio que fala, obviamente, em todas línguas como um autóctone, uma treta para revolver o sono dos justos.

O pior crime do socratismo psista foi a destruição da RTP 2. Não havia necessidade, que diabo! Tanto filho-família na porra do penico é demais. Acabaram com a televisão cultural, dedicam-se a velhos sobrevivos, esses os ainda televisionáveis, que os poetas enterrados não dão entrevistas, uns merdas intoleráveis que, entre bares e festinhas de charme pútrido, se lançam aos milhares de euros que vão saindo do público erário, quais estrelinhas do jardim de infância, nas festas de Natal, ah! Que saudades! E tantos são os que não as escondem.

Alguma vez, algum critério sequer. Nã! O pivot mais sofrido não leva menos de 12 mil euros, com roupa e carro, e os directores alçam-se por aí acima, ganham quase tanto como eu, quem julgam que são. Ao menos parem com os sequeteches de vampiros e de hospitais, alarguem-se um pouco, vão para Londres, poetizem-se, deiem-se ao amor da escrita (enfim, cuidado para não ultrapassarem os lugares disponíveis nas prateleiras, à conta de heresias sem castigo, de que bem precisavam). Apetece dizer, se velhos, Bukowski, que é como quem diz: fora choco!