O futebol é das raras disciplinas técnicas que ainda vive de segredos bem guardados. Enquanto as ciências, as tecnologias e as artes estão protegidas por direitos de autor, propriedade industrial e royalties, no futebol, como no direito ou na gastronomia, o saber tem de refugiar-se dos olhares cobiçosos. Não se encontram manuais úteis nas livrarias e os cursos de treinadores estão ao nível da formação profissional do IEFP. Por se desconhecer as suas artes, se admira tanto os que vencem, como se fossem prestidigitadores. E também por isso se lhes atribui capacidades mágicas de sedução (Mourinho que seduz os jogadores e outros imaginários), quando afinal os seduzidos somos nós, num jogo estranho em que o rude adepto se projecta no ídolo, qual menina perante os Beatles.
Basta rememorar o fantástico jogo do passado sábado entre o Inter e o Bayern para perceber que não fazem qualquer sentido as frases que os comentadores futebolísticos repetem jogo após jogo: a posse de bola não dá domínio do jogo; a equipa que mais ataca não é a que mais merece vencer; os tentos falhados não são quase golos; os cantos não se ganham, mas resultam de lances de ataque perdidos; os espaços não se ocupam, como soldados num teatro de guerra, pois joga-se a quatro dimensões, numa combinação de movimento, corpos extensos e tempo; que não há ânimo que resista ao desnorte táctico e que, pelo contrário, a disciplina, a segurança das informações disponíveis e a pujança física potenciam o ânimo.
Não deve ser difícil descobrir jovens promessas ou craques nascentes. As qualidades dos atletas são visíveis a olho nu, daí chamar-se "olheiros" aos que desempenham tal tarefa. Os testes médicos permitem avaliar as capacidades de progressão e resistência, e os exames psicológicos, as capacidades de disciplina e inteligência. Se se observar tantos jogos de um jogador, pode-se saber se é promissor. Mas tem-se apenas um diamante em bruto. Para que evolua, é preciso um treinador que, sabendo previamente o que pretende pôr em jogo, o conduza a enquadrar-se nesse jogo, num trabalho específico. E tal tarefa não se revela a todos. É exclusiva dos grande treinadores (que sabem, por exemplo, que a um jogador que ganha uma disputa difícil nem sempre é exigível que esteja simultaneamente a ler o jogo para o lance seguinte, pelo que precisa de um jogador de apoio, que por sua vez se socorre dos outros num trabalho em rede, e que o funcionamento dessa rede tem de estar devidamente medido e calculado, com objectivos precisos em cada ponto).
Carlos Queiroz deixou a televisão filmar, há dias, o processo de preparação e selecção dos jogadores nacionais. Fez uma base de dados em que registou as jogadas dos seleccionáveis nos diversos campeonatos (tantas jogadas à esquerda, tantos remates para o ar, quedas, fintas, etc.). No final, obteve um somatório de informações que terão servido para formar a actual equipa de Portugal.
O esquema ilude. Baseia-se num taylorismo dificilmente concretizável. Como as tarefas a desempenhar não são rígidas, nem pré-determinadas e os jogos observados não são os da selecção, a base de dados não se torna operativa sem recurso a modelos matemáticos altamente complexos. Qualquer pessoa que tenha de processar grande quantidade de informação produzida de modo aleatório tem de recorrer à intuição, ou tem de desenvolver algoritmos pesados, que têm de incorporar todas as técnicas e artes envolvidas. Trata-se de uma dificuldade que as ciências sociais ainda não resolveram e, por isso, se ficam as mais das vezes pela estatística.
Vendo agora o jogo Portugal - Cabo Verde, acho que Queiroz não tem intuição nem matemática, e que lhe falta transmitir aos jogadores qualquer coisa para fazer dentro do campo. Podia telefonar ao Mourinho...
segunda-feira, 24 de maio de 2010
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O problema dos juízes
Alguns jovens parecem conseguir abarcar todo o saber numa área de conhecimento. Não se percebe como o conseguem. No entanto, tornam-se lúcidos ou translúcidos perante a escola. Absorvem e sintetizam. Na universidade, aprendi com eles mais do que com os professores. Alumiaram as minhas dúvidas e segui as parcas palavras que captei. Se o leitor não se apercebeu de nenhum, saiba que são raros. Atirados para o mundo burocrático, perdem-se nas agruras armadilhadas que servem os velhos e os oportunistas. São ainda mais raros os que singram ou que se tornam conhecidos.
Um princípio de mérito aconselharia que lhes fosse aberta a porta dos lugares mais distintos da sociedade. Todavia, a experiência mostra que nem sempre se cumpre uma cabal realização do seu génio. Ora, numa sociedade livre e aberta, deve acreditar-se que os melhores conseguem sustentar-se por si bastantemente.
Perante tal dilema, parece que não se deve exigir dos jovens uma responsabilidade comparável à dos velhos. A carreira é um contra-senso do mérito e a burocracia é uma convulsão do génio.
Por outro lado, não se conhece processo de selecção algum que evite que os oportunistas tomem o lugar dos seres geniais. Precisamente, a selecção tem de ser feita por quem é meramente banal, sério, velho (pensemos na incompetência fundamental do júri do concurso das pontes suspensas).
Concluindo: os lugares de destaque devem ser assumidos pelos mais velhos, quando dependem de uma carreira, isto é, de um caminho submetido a escrutínio. Não deve haver juízes jovens.
O escrutínio é duplo ou triplo: de satisfação do direito, de satisfação jurisprudencial e de satisfação socio-económica. Batalha-se pelo ganho de causa e dessa batalha faz-se o direito e, quantas vezes, a lei. Ora, quem batalha não pode escrutinar os juízes. Não pode morder a cauda. E as influências que muitos trazem para a batalha não podem chegar à independência dos decisores. Os advogados e os políticos têm de ficar de fora dos sistemas de controlo de qualidade das decisões dos juízes. O melhor argumento que pode colher-se no exterior neste mesmo sentido é a cavalgação que os advogados da Ordem dos Advogados e da Assembleia da República têm vindo a fazer para sindicar e controlar os juízes.
Por último, o trabalho do juiz é o pensamento, uma busca quase sempre inconsequente da razão. A decisão do juiz, por ser necessariamente conjuntural, tende a estar errada. Daí a evolução da jurisprudência (examine-se a que foi proferida a propósito do Código da Estrada desde os anos 40 e perceber-se-á quão serôdios foram os de ontem aos olhos de hoje, e os de hoje serão para os de amanhã). Tal exercício de intelectualidade não se compadece com prolixismos produtivistas ou com horários laborais. Um juiz não trabalha, elabora, raciocina, historicisa-se.
Assim, propomos que, em vista de uma sociedade justa, não se faça carreira da judicatura, que os juízes sejam escolhidos de entre os mais velhos, que não sejam sindicados pelos advogados ou pelos políticos e que não estejam submetidos a horário de trabalho, nem a critérios de produtividade estrita.
Um princípio de mérito aconselharia que lhes fosse aberta a porta dos lugares mais distintos da sociedade. Todavia, a experiência mostra que nem sempre se cumpre uma cabal realização do seu génio. Ora, numa sociedade livre e aberta, deve acreditar-se que os melhores conseguem sustentar-se por si bastantemente.
Perante tal dilema, parece que não se deve exigir dos jovens uma responsabilidade comparável à dos velhos. A carreira é um contra-senso do mérito e a burocracia é uma convulsão do génio.
Por outro lado, não se conhece processo de selecção algum que evite que os oportunistas tomem o lugar dos seres geniais. Precisamente, a selecção tem de ser feita por quem é meramente banal, sério, velho (pensemos na incompetência fundamental do júri do concurso das pontes suspensas).
Concluindo: os lugares de destaque devem ser assumidos pelos mais velhos, quando dependem de uma carreira, isto é, de um caminho submetido a escrutínio. Não deve haver juízes jovens.
O escrutínio é duplo ou triplo: de satisfação do direito, de satisfação jurisprudencial e de satisfação socio-económica. Batalha-se pelo ganho de causa e dessa batalha faz-se o direito e, quantas vezes, a lei. Ora, quem batalha não pode escrutinar os juízes. Não pode morder a cauda. E as influências que muitos trazem para a batalha não podem chegar à independência dos decisores. Os advogados e os políticos têm de ficar de fora dos sistemas de controlo de qualidade das decisões dos juízes. O melhor argumento que pode colher-se no exterior neste mesmo sentido é a cavalgação que os advogados da Ordem dos Advogados e da Assembleia da República têm vindo a fazer para sindicar e controlar os juízes.
Por último, o trabalho do juiz é o pensamento, uma busca quase sempre inconsequente da razão. A decisão do juiz, por ser necessariamente conjuntural, tende a estar errada. Daí a evolução da jurisprudência (examine-se a que foi proferida a propósito do Código da Estrada desde os anos 40 e perceber-se-á quão serôdios foram os de ontem aos olhos de hoje, e os de hoje serão para os de amanhã). Tal exercício de intelectualidade não se compadece com prolixismos produtivistas ou com horários laborais. Um juiz não trabalha, elabora, raciocina, historicisa-se.
Assim, propomos que, em vista de uma sociedade justa, não se faça carreira da judicatura, que os juízes sejam escolhidos de entre os mais velhos, que não sejam sindicados pelos advogados ou pelos políticos e que não estejam submetidos a horário de trabalho, nem a critérios de produtividade estrita.
Teste qualitativo
Leia atentamente a seguinte frase colhida do manifesto de candidatura do Dr. Fragoso Marques a Bastonário da Ordem dos Advogados:
“A defesa dos Valores nunca nos impedirá de alterar tudo quanto careça de alteração.”
Num teste americano, indique qual das seguintes asserções melhor traduz o sentido da frase que acabou de ler:
1. Os valores podem carecer de alteração.
2. Deve alterar-se tudo o que não respeita os valores.
3. A defesa dos valores não prejudica a criação de outros valores.
4. Deve impedir-se as alterações dos valores.
Elabore um pequeno texto explicativo do conceito de “valores”.
Envie o seu trabalho para um e-mail à sua escolha e aguarde o resultado.
“A defesa dos Valores nunca nos impedirá de alterar tudo quanto careça de alteração.”
Num teste americano, indique qual das seguintes asserções melhor traduz o sentido da frase que acabou de ler:
1. Os valores podem carecer de alteração.
2. Deve alterar-se tudo o que não respeita os valores.
3. A defesa dos valores não prejudica a criação de outros valores.
4. Deve impedir-se as alterações dos valores.
Elabore um pequeno texto explicativo do conceito de “valores”.
Envie o seu trabalho para um e-mail à sua escolha e aguarde o resultado.
Direitos adquiridos e tolerância de ponto
Um burguês culto, bem instalado na vida, artista e comentador, que não tem patrão, nem horário de trabalho, insurge-se contra o Governo por ter permitido a dispensa de serviço dos funcionários públicos, nos dias coincidentes com a visita do Papa a Portugal. Não se percebe qual o fundamento daquela preocupação. Desgosta-se da perda de produção, quando se sabe que os funcionários prestam serviços de regulação e assistência que não são fonte de produção propriamente dita? Perfilha-se um moralismo laborista, um rigor patronal, quando se sabe que a tolerância de ponto foi um instrumento do salazarismo? Teme-se pelos prejuízos que os particulares podem sofrer por inoperância dos serviços, quando o Estado e uma boa parte da sociedade reclamam a presença do mundo inteiro frente às missas campais do Papa? Protesta-se contra a desigualdade entre trabalhadores públicos e privados, quando o Estado exorta as empresas a facilitar as comemorações Papais? Não.
O comentador protestante dá-nos uma pista das suas razões, a par de brados contra supostas pontes de fim-de-semana, quando convoca em apoio da sua tese os protestos das centrais sindicais. Os trabalhadores querem trabalhar mas o Governo dispensa-os. Afaga-lhes a vida numa época de crise. Para o Papa, pede festa, quando se adivinham restrições, aumento da precariedade, baixa de remunerações e de impostos. Os sindicatos, pelos vistos, estarão dispostos a manter o grau de exigência, desde que não haja perda de direitos. Os funcionários, por seu turno, preferem aproveitar para já a falta paga ao trabalho, embora possam prestar serviço efectivo, seguindo o conselho dos sindicatos (como o próprio nome indica trata-se de uma tolerância de ponto e não de um encerramento do local de trabalho, que pode funcionar mediante a comparência de um mínimo de pessoal). Aproveitam a benesse, a contrapartida antecipada pelas restrições que aí vêm.
As razões do comentador percebem-se agora: quer ter razão mais tarde, quando disser: olhem como avisei, folgaram quando deviam trabalhar e aqui têm as consequências. É um puro oportunista reaça. Mas é um populista, pois deixa entrever (inconscientemente prepara) a resposta dos funcionários num cenário de crise: “fomos enganados! A nossa excelsa capacidade foi desaproveitada, o Estado é perdulário. Revoltemo-nos para salvarmos o que resta!”. Ou seja, salvo o exagero inconsequente da revolta, o regresso ao moralismo da disciplina, da produtividade, do mérito, da desigualdade, da hierarquização. Um funcionalismo ressurgido do caos, como fez o salazarismo.
Os funcionários estão hoje naquela contingência. O contínuo agravamento das condições económicas, com perda efectiva de rendimentos, desemprego e precariedade laboral, não se compagina com um estatuto de direitos quase perpétuos, boas remunerações, sistema de saúde de luxo e reformas celestiais. O Estado não pode manter dentro de si próprio uma classe privilegiada de funcionários, quando não consegue realizar um mínimo de justiça social. Os desequilíbrios futuros seriam astronómicos: reformados nababos versus velhos indigentes.
A fonte da desigualdade afigura-se aqui bem mais visível do que entre capitalistas e proletários. Os funcionários distinguem-se dos restantes cidadãos apenas pelos direitos que o Estado lhes confere. O direito enquanto fonte de desigualdade, como Marx apontou para a protecção do Estado ao direito de propriedade sobre o capital. Ora, um Estado democrático não carece de um funcionalismo fiel. Podem revoltar-se, fazer greve, manifestar-se, protestar. O Estado precisa, pelo contrário, de moral, de legitimação popular.
Aqui temos o populismo a clamar por justiça e a arraia-miúda a reclamar tratamento igualitário ao dos funcionários. Chegou a hora de apertarem o cinto. Não vale invocar que os direitos foram adquiridos (que só os tornam transitórios, por oposição a universais ou de origem divina). Será melhor táctica a ancestral subserviência, afagar o leão, submergir, à espera da recuperação económica ou de um regime que precise de funcionários fiéis.
O comentador protestante dá-nos uma pista das suas razões, a par de brados contra supostas pontes de fim-de-semana, quando convoca em apoio da sua tese os protestos das centrais sindicais. Os trabalhadores querem trabalhar mas o Governo dispensa-os. Afaga-lhes a vida numa época de crise. Para o Papa, pede festa, quando se adivinham restrições, aumento da precariedade, baixa de remunerações e de impostos. Os sindicatos, pelos vistos, estarão dispostos a manter o grau de exigência, desde que não haja perda de direitos. Os funcionários, por seu turno, preferem aproveitar para já a falta paga ao trabalho, embora possam prestar serviço efectivo, seguindo o conselho dos sindicatos (como o próprio nome indica trata-se de uma tolerância de ponto e não de um encerramento do local de trabalho, que pode funcionar mediante a comparência de um mínimo de pessoal). Aproveitam a benesse, a contrapartida antecipada pelas restrições que aí vêm.
As razões do comentador percebem-se agora: quer ter razão mais tarde, quando disser: olhem como avisei, folgaram quando deviam trabalhar e aqui têm as consequências. É um puro oportunista reaça. Mas é um populista, pois deixa entrever (inconscientemente prepara) a resposta dos funcionários num cenário de crise: “fomos enganados! A nossa excelsa capacidade foi desaproveitada, o Estado é perdulário. Revoltemo-nos para salvarmos o que resta!”. Ou seja, salvo o exagero inconsequente da revolta, o regresso ao moralismo da disciplina, da produtividade, do mérito, da desigualdade, da hierarquização. Um funcionalismo ressurgido do caos, como fez o salazarismo.
Os funcionários estão hoje naquela contingência. O contínuo agravamento das condições económicas, com perda efectiva de rendimentos, desemprego e precariedade laboral, não se compagina com um estatuto de direitos quase perpétuos, boas remunerações, sistema de saúde de luxo e reformas celestiais. O Estado não pode manter dentro de si próprio uma classe privilegiada de funcionários, quando não consegue realizar um mínimo de justiça social. Os desequilíbrios futuros seriam astronómicos: reformados nababos versus velhos indigentes.
A fonte da desigualdade afigura-se aqui bem mais visível do que entre capitalistas e proletários. Os funcionários distinguem-se dos restantes cidadãos apenas pelos direitos que o Estado lhes confere. O direito enquanto fonte de desigualdade, como Marx apontou para a protecção do Estado ao direito de propriedade sobre o capital. Ora, um Estado democrático não carece de um funcionalismo fiel. Podem revoltar-se, fazer greve, manifestar-se, protestar. O Estado precisa, pelo contrário, de moral, de legitimação popular.
Aqui temos o populismo a clamar por justiça e a arraia-miúda a reclamar tratamento igualitário ao dos funcionários. Chegou a hora de apertarem o cinto. Não vale invocar que os direitos foram adquiridos (que só os tornam transitórios, por oposição a universais ou de origem divina). Será melhor táctica a ancestral subserviência, afagar o leão, submergir, à espera da recuperação económica ou de um regime que precise de funcionários fiéis.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
Cavaco, o educador monárquico
Cavaco baralha a política com a economia a ponto de não ser possível destrinçá-las. A corrente dominante sujeita os respiros ao mercado. Quem diz respiros, pode acrescentar também os suspiros, tesões, aspirações, evolucroções, torções, razões e explicações. Mercado é um eufemismo para as susceptibilidades das enormes massas monetárias que se passeiam pelo mundo, entregues às apostas de plebeus aspirantes a ricos. Quando enriquecem, vão para gurus ou são simplesmente consumidos pela volúpia numa praia tropical, onde séculos de piratas esconderam tesouros para todo o sempre. O plebeísmo é uma fonte inesgotável de serviçais. Mas como compreender a nuvem de fluxos contabilísticos intraduzíveis que andam pelos mares como caravelas fantasma, a atacar tudo quanto mexa, a transpor todas as fortalezas de desejo que o mundo continua a erguer incansavelmente? O mercado: a bolsa?, a banca? Claro que não! Mercado são os quatrilhões imensos de capital artificial, acumulação de mais-valias subentendidas em dois séculos e três grandes guerras. O fel voraz do nada. A entropia. Dívida e desperdício. A consumação de um terço da capacidade de trabalho mundial. Os restantes dois terços, por tradicionalismos, numa parte considerável do mundo, ou por batalha constante, na parte ocidentalizada, persistem em escapar à voracidade totalitária dessa nuvem sem fito nem destino, que intoxica quanto toca. Assim é também em Portugal: talvez três quartos escapem ao dever do trabalho submisso. Os agricultores precisam de um terço do ano para atingirem o máximo de rendimento. E as empresas de turismo. E as empresas de viagens, de ensino, de saúde, de vestuário e calçado, de marketing. E os canalizadores, sapadores, garimpeiros, emigras e calceteiros. Viva o sol! Uma minoria de trabalhadores permanentes dá ganhos a uma infinidade de tansos. Que melhor pode haver? O Estado a inventar procedimentos e voltinhas de papelada para criar emprego interno, para fiscalizar o emprego interno e para sujeitar todos os outros a qualquer novidade arrasadora. ASAE precisa-se! Lá produção, qual quê! Estatísticas e mais projecções. Se não assapassem pelas IPs e usassem o autocarro, que seria do nosso consumo de combustível? Da nossa indústria eólica? E se os acidentes rareassem que seria do nosso PIB? E do nosso comércio automóvel? E se a água da rede fosse confiável, arrasaríamos o florescente sector das águas engarrafadas! Terra maravilhosa de lancis, rotundas e viadutos, abençoada sejas! Aqui os poetas a cantaram, qual fonte futurista imorredoira. Camões, Pessoa, nossos, absolutamente únicos e inimitáveis. Enquanto se mantiverem numa sombra das nossas recordações, não haverá nuvem que nos submeta.
Mas Cavaco, esse economista retro, fazedor de fortunas alheias, qual Salazar hodierno, sai pespegando a bandeira pátria contra os ventos iracundos da nuvem financeira, alçando os valores pátrios nos dentes refilados, sobre os quais se semicerram os típicos lábios portugueses, inclinados sobre o fechado, a balbuciar cortesias que saem sem jeito, a travar a digestão. Ah! Portuga, esse arroto que não soa distingue-te do mundo inteiro. Por ti e pelos teus correligionários de viagem, uma distinção emérita: a voz de Portugal no mundo. Onde ir então, na pobreza intelectual que por aí grassa, que melhor destino que a República Checa. Essa terra de fachos, capital dos carteiristas e das putas de luxo, que para se alcandorar ao mundo se descartou da parte pobre, a Eslováquia. Uns toscos que se acham lavados por se lavarem, que o grande Kafka reduziu à mais absoluta escuridão para todo o sempre. Uma gente infeliz sem nação, um país sem nome, Checa, tirado que lhe seja o cognome de opressor, República. Uma terra a jeitos de Hitler e de Estaline, que em 1968 a aleivosia soviética salvou da vergonha fascistoide, para onde tende a descambar assim que lhe tiram a bota de cima. No entanto, não se lhe conhece grande fractura social: maioritariamente proletários, educados pelo mínimo urbano, armados em iguais uns dos outros, com uma elite de milionários, estatista e vingativa, reduzida. É isto que lhes permite conter o défice: se não houver dinheiro cortam o transporte, depois o fiambre, depois o aquecimento, depois o sapatito, depois o livrito e vão cortando por aí fora, sem défice algum, até que se transformem no caralho dum gulag!
Se Cavaco queria dizer algo ao portuga, disse-o pela boca gorda do primeiro-ministro checo, o big boss daquele regime, quando se pôs a reclamar dos défices das maravilhosas terras do Sul. Grécia, a divina luz, ameaçada pela espúria nuvem. Portugal o rosto do Ocidente, anunciado por Pessoa. Portuga, lembra-te: tudo menos bofes!
Viva Portugal, Viva o rei!
Mas Cavaco, esse economista retro, fazedor de fortunas alheias, qual Salazar hodierno, sai pespegando a bandeira pátria contra os ventos iracundos da nuvem financeira, alçando os valores pátrios nos dentes refilados, sobre os quais se semicerram os típicos lábios portugueses, inclinados sobre o fechado, a balbuciar cortesias que saem sem jeito, a travar a digestão. Ah! Portuga, esse arroto que não soa distingue-te do mundo inteiro. Por ti e pelos teus correligionários de viagem, uma distinção emérita: a voz de Portugal no mundo. Onde ir então, na pobreza intelectual que por aí grassa, que melhor destino que a República Checa. Essa terra de fachos, capital dos carteiristas e das putas de luxo, que para se alcandorar ao mundo se descartou da parte pobre, a Eslováquia. Uns toscos que se acham lavados por se lavarem, que o grande Kafka reduziu à mais absoluta escuridão para todo o sempre. Uma gente infeliz sem nação, um país sem nome, Checa, tirado que lhe seja o cognome de opressor, República. Uma terra a jeitos de Hitler e de Estaline, que em 1968 a aleivosia soviética salvou da vergonha fascistoide, para onde tende a descambar assim que lhe tiram a bota de cima. No entanto, não se lhe conhece grande fractura social: maioritariamente proletários, educados pelo mínimo urbano, armados em iguais uns dos outros, com uma elite de milionários, estatista e vingativa, reduzida. É isto que lhes permite conter o défice: se não houver dinheiro cortam o transporte, depois o fiambre, depois o aquecimento, depois o sapatito, depois o livrito e vão cortando por aí fora, sem défice algum, até que se transformem no caralho dum gulag!
Se Cavaco queria dizer algo ao portuga, disse-o pela boca gorda do primeiro-ministro checo, o big boss daquele regime, quando se pôs a reclamar dos défices das maravilhosas terras do Sul. Grécia, a divina luz, ameaçada pela espúria nuvem. Portugal o rosto do Ocidente, anunciado por Pessoa. Portuga, lembra-te: tudo menos bofes!
Viva Portugal, Viva o rei!
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terça-feira, 30 de março de 2010
Um conselho a Paulo Portas
Paulo Portas conquistou um polémico lugar na direita partidária, mérito que lhe deve ser reconhecido. Nota-se porém que, quando o espectro eleitoral parece mais propício ao CDS, Paulo Portas perde um pouco o auto-controlo e assume um excesso de protagonismo muitas vezes inconsequente.
Repetidamente, batalha a autoridade na educação e acaba por perder popularidade. Deve-lhe custar a compreender que, tal como ele fez com Manuel Monteiro, não há poder que não lhe ofereça esse cavalinho com rodinhas: vai de um lado ao outro do palco e sai precisamente antes das eleições. Aliás Paulo Portas exibe uma confrangedora falta de conhecimentos sobre a matéria, fazendo razia sobre os princípios liberais ou sobre os valores cristãos indiciados no próprio nome do seu partido. Dizer que os alunos devem estudar para entrarem com boas oportunidades no mercado de trabalho, fica bem na mentalidade rural, como antes se dizia ao aluno repetente que devia passar o ano para poder "tirar a carta". Na sociedade democrática, tais exortações, quando generalizadas a todas as crianças e jovens, violam as regras básicas do utilitarismo ou de qualquer outra corrente que se escolha. É como dizer aos pais que devem ter filhos para os destinar ao mercado de trabalho. Soa a qualquer coisa de Estalinista. E centra a vida no mercado, desvirtuando o humanismo e a razão de ser desse mercado, segundo os liberais.
O que falta dizer além daqueles chavões antigos, Paulo Portas não sabe. Por isso, aqui vai um conselho: tire o cavalinho da chuva; devolva-o a quem o empurrou para si.
Repetidamente, batalha a autoridade na educação e acaba por perder popularidade. Deve-lhe custar a compreender que, tal como ele fez com Manuel Monteiro, não há poder que não lhe ofereça esse cavalinho com rodinhas: vai de um lado ao outro do palco e sai precisamente antes das eleições. Aliás Paulo Portas exibe uma confrangedora falta de conhecimentos sobre a matéria, fazendo razia sobre os princípios liberais ou sobre os valores cristãos indiciados no próprio nome do seu partido. Dizer que os alunos devem estudar para entrarem com boas oportunidades no mercado de trabalho, fica bem na mentalidade rural, como antes se dizia ao aluno repetente que devia passar o ano para poder "tirar a carta". Na sociedade democrática, tais exortações, quando generalizadas a todas as crianças e jovens, violam as regras básicas do utilitarismo ou de qualquer outra corrente que se escolha. É como dizer aos pais que devem ter filhos para os destinar ao mercado de trabalho. Soa a qualquer coisa de Estalinista. E centra a vida no mercado, desvirtuando o humanismo e a razão de ser desse mercado, segundo os liberais.
O que falta dizer além daqueles chavões antigos, Paulo Portas não sabe. Por isso, aqui vai um conselho: tire o cavalinho da chuva; devolva-o a quem o empurrou para si.
domingo, 28 de março de 2010
Fuzeta e a praia de Moncarapacho
Tendo o mar destruído uma parte da ilha da Fuzeta, precisamente onde se ajuntavam as barracas de praia, abrem-se uma série de questões fundamentais para o futuro daquela antiquíssima terra de pescadores.
Uma das primeiras conclusões que pode desde já tirar-se é a de que, opine o povo o que quiser, discuta este grupo contra aquele, proponha algum serioso uma solução, nada disso terá qualquer influência no que for decidido e executado pelas autoridades públicas, ou seja, pelo Estado. Por três razões: 1) desapareceu o povo corajoso que exigia a barra e o porto ao fascismo, desapareceram os homens de mar de palavra grave e segura, falta o amor à terra e o respeito pelos antepassados; 2) abunda a dolência subsidiada, o falatório maledicente, a pura ignorância, a subserviência aos distribuidores do ridículo bodo que lhes vai cabendo; 3) e o Estado, que se escuda nos técnicos e depois na “falta de verbas”, não ouvirá o povo, antes continuará com vãs promessas. A Fuzeta degrada-se a olhos vistos, de ano para ano. Uma povoação feita por gente brava e intrépida está entregue a montanheiros e a boçais de garganta alçada como um punho fechado. Uma tristeza!
A mais evidente demonstração do que acima afirmamos manifesta-se no facto de, volvidos 36 anos de democracia e se calhar por causa dela, continuar a Fuzeta dividida em duas freguesias, uma da Fuzeta propriamente e outra nas extremas do território de Moncarapacho. Será a única povoação do Sul em que tal problema assume uma gravidade crucial: a Fuzeta não tem centro de saúde, escola C+S, depósito de água, salinas ou vinhas, está tudo em Moncarapacho. Torna difícil o planeamento e a justa distribuição de recursos pelo Estado. Mas distribuem-se também os votos: como a população da Fuzeta tem tendência a votar maioritariamente PS, a que cai na freguesia de Moncarapacho vota lá, pela maior parte, e assim o PS tende a ganhar nas duas freguesias. Estará aqui uma das causas da actual situação.
Uma das primeiras conclusões que pode desde já tirar-se é a de que, opine o povo o que quiser, discuta este grupo contra aquele, proponha algum serioso uma solução, nada disso terá qualquer influência no que for decidido e executado pelas autoridades públicas, ou seja, pelo Estado. Por três razões: 1) desapareceu o povo corajoso que exigia a barra e o porto ao fascismo, desapareceram os homens de mar de palavra grave e segura, falta o amor à terra e o respeito pelos antepassados; 2) abunda a dolência subsidiada, o falatório maledicente, a pura ignorância, a subserviência aos distribuidores do ridículo bodo que lhes vai cabendo; 3) e o Estado, que se escuda nos técnicos e depois na “falta de verbas”, não ouvirá o povo, antes continuará com vãs promessas. A Fuzeta degrada-se a olhos vistos, de ano para ano. Uma povoação feita por gente brava e intrépida está entregue a montanheiros e a boçais de garganta alçada como um punho fechado. Uma tristeza!
A mais evidente demonstração do que acima afirmamos manifesta-se no facto de, volvidos 36 anos de democracia e se calhar por causa dela, continuar a Fuzeta dividida em duas freguesias, uma da Fuzeta propriamente e outra nas extremas do território de Moncarapacho. Será a única povoação do Sul em que tal problema assume uma gravidade crucial: a Fuzeta não tem centro de saúde, escola C+S, depósito de água, salinas ou vinhas, está tudo em Moncarapacho. Torna difícil o planeamento e a justa distribuição de recursos pelo Estado. Mas distribuem-se também os votos: como a população da Fuzeta tem tendência a votar maioritariamente PS, a que cai na freguesia de Moncarapacho vota lá, pela maior parte, e assim o PS tende a ganhar nas duas freguesias. Estará aqui uma das causas da actual situação.
Vem agora o pensante observar que o mar abriu a ilha onde há 50 anos havia uma barra. E acha-se tudo muito natural. Pois é mesmo esse o problema. Na Ria Formosa as barras abrem-se onde a natureza quer. É na sua proximidade que devem fixar-se os pescadores, os portos, o turismo. Ao longo de milénios foram surgindo povoamentos nesses locais e foram desaparecendo quando as barras fechavam ou as passagens assoreavam. O caso mais conhecido é o da cidade romana de Balsa, frente à actual Luz de Tavira. Mas também se conhece o de Tavira, que foi capital do Algarve e um dos principais portos de Portugal e perdeu o cargo para Faro, pelo assoreamento e deslocação da barra. A barra do farol está onde está porque foram construídos molhes de protecção, logo no século XVIII, por várias vezes reforçados e reconstruídos. Este pormenor manteve Faro capital do Algarve, numa época em que dispunha do único porto com canal navegável para embarcações de grande calado e o transporte se fazia por barco (com o declínio do comércio marítimo, Faro mantém-se capital apenas por beneplácito do Estado). A actual barra de Tavira foi construída pelo homem. Em Cacela Velha, há alguns anos, o cordão dunar também foi destruído pelo mar e reposto pelo homem.
Portanto, se quereis manter a Fuzeta consolidada, o acesso ao mar, o porto de pequenas embarcações e o turismo, não há solução que não passe por interferir no processo natural da ria, fechar, abrir ou consolidar barras. Estas obras têm de assumir um carácter duradouro, que garanta a estabilidade da economia local.
Outro aspecto fundamental é o da protecção da natureza riquíssima e belíssima que circunda a Fuzeta. Tem de ser protegida dos abusos, seja do excesso de turistas, seja do excesso de obra, em especial a que tem caído sobre o entorno marítimo. Será errado massificar o acesso à praia num curto cordão de duna, como também o será distribuir-se veraneantes por todos os lençóis de areia. Quanto mais perto do mar estiver o porto do recreio e mais perto da ilha estiver o transporte de passageiros, menos poluição se gera. Quando se debate se deve manter-se a barra que o mar agora abriu, não pode esquecer-se uma questão essencial: hoje a Fuzeta não pode subsistir sem turismo e este sem acesso marítimo à ilha. Enfim, quanto a soluções, leia-se o segundo parágrafo deste texto.
Qualquer solução alternativa à localização tradicional da praia da ilha, coloca-a na área da freguesia de Moncarapacho, pelo menos em parte. Têm pois aqui os moncarapachenses o seu momento de glória, eles que tanto lutaram pelo reconhecimento da praia do outro lado da ponta das pedras, pobrezinhos, vão poder ufanar-se da praia de Moncarapacho. Talvez assim a Fuzeta acorde.
É preciso delimitar uma nova área da freguesia, da torre redonda à EN125, com excepção de Bias, e da EN125 até o limite do concelho de Tavira. Simultaneamente, é preciso abrir à discussão pública o planeamento do território, o que pode ou não urbanizar-se, a actividade piscatória, a localização do porto de recreio, as áreas públicas de lazer, um novo parque de campismo e infra-estruturas turísticas. É neste quadro que se joga o problema da barra.
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