sexta-feira, 29 de maio de 2009
Fuzeta: das chotas aos bilros
É (foi) o caso da Fuzeta. Pequena aldeia de pescadores, não merece menção nas fontes históricas senão a partir do século XVIII. Sobre a antiguidade da Fuzeta leia-se o artigo anterior deste blogue “contribuição para o estudo do burguel”. A presença de uma população piscatória é evidente. Desde as corografias do século XIX, repete-se que o lugar evoluiu da ocupação em cabanas para a construção em alvenaria. Todavia, esta visão afigura-se simplificadora.
A Fuzeta tem uma localização privilegiada sobre um maciço calcáreo altaneiro frente a uma barra da Ria Formosa, entretanto deslocada. As potencialidades económicas são muito diversificadas. Desde logo as actividades ligadas à agricultura, em especial a produção de frutos secos e de vinho para exportação, contando com escoamento pelo porto de mar, que atingiu o expoente no final do século XIX, mas que é referenciada (figueiral) no foral de Faro. De valia exportadora semelhante, a produção de sal parece antiquíssima, pelos vestígios de contenção dos terrenos da ria, jogando entre a conquista de terras agrícolas e o aproveitamento salineiro. Tiveram forte expressão as actividades recolectoras dos produtos naturais da ria, algas, peixes e mariscos. A pesca local, na ria e na proximidade da costa, justificou o assentamento de pequenos grupos de pescadores. As armações de atum, dependentes de grandes concessões públicas a grandes proprietários ou, no século XIX, a empresas específicas, arregimentavam grandes grupos de trabalhadores na época das campanhas. Distinta daquelas eram a pesca de alto mar e a actividade de transporte marítimo.
Cada actividade empregava diferentes populações, com carácter sazonal. Para a apanha de frutos, de algas, arraial de atum e outras actividades recolectoras eram necessários trabalhadores indiferenciados, especialmente mulheres e crianças. Para as salinas, reservavam-se os empregos com especial cuidado para famílias tradicionalmente ligadas àquela actividade, os marnotos, por receio de que as técnicas de exploração fossem transmitidas a estrangeiros, protegendo-se assim uma das principais riquezas do reino. A pesca de alto mar exige competências que não se coadunam com uma população ligada à pesca ribeirinha. A seca de peixe, produção de peixe fumado ou em conserva, que atingiu o auge com a difusão da “arte nova” de apanha costeira da sardinha exigiam pessoal especializado. Por outro lado, a intensa pirataria, que apenas abrandou a partir de 1830 quando os franceses conquistaram a Argélia, as epidemias recorrentes, em especial de cólera (estão registadas as devastações de 1833 e 1855-1856, mas a cólera reincidiu até meados do século XX), os sismos, as guerras, sobretudo as invasões francesas, e os grandes fluxos migratórios, para Espanha ou América, fizeram partir ou trouxeram renovadas levas de gentes. Pequenos grupos refugiaram-se também aqui, vindos pelo Mediterrâneo, mantendo as suas tradições, aproveitando-se da natureza aberta, abundante e carente de mão-de-obra.
As políticas de povoamento, de incremento das pescas e da actividade marítima sustentaram concessões para salinas, armações de atum, mas também de companhias de pesca e de conserva. Nesse âmbito, diversas populações piscatórias foram aliciadas a instalar-se na Fuzeta, vindas de zonas pesqueiras da costa Norte, estando documentadas migrações do distrito de Aveiro. Eram pescadores que dominavam as artes de velejar e das redes, formando companhas organizadas. O conjunto daquelas actividades era igualmente controlado pelos poderes públicos. Os pescadores estavam sujeitos ao “compromisso marítimo”.
Não é possível seguir a evolução destas populações, senão, como se referiu, desde o século XVIII. Antes da fundação da paróquia, um simples lugar não merecia referência nas fontes e muito menos mereciam relevo as pobres gentes locais. No século XX, encontramos distintos grupos populacionais. Os pescadores das companhas de alto mar, dos caíques e das traineiras, que velejavam de Larache a Lisboa e pescavam bacalhau na Terra Nova, formavam o núcleo principal, habitando nas casas de açoteia do núcleo urbano. Os pescadores pobres, que moravam nas zonas ribeirinhas ou em cabanas no areal ou na ilha, parecem distintos daqueloutros, empregando-se na pesca local e usando artes arcaicas. Os proprietários rurais e, nas franjas da povoação, camponeses sem terra formavam um grupo pouco numeroso, mas com expressão enquanto empregadores sazonais. A população ligada aos poderes públicos, aos serviços ou com bens de raiz formavam o topo da hierarquia da Fuzeta. Estes grupos distinguiam-se pelo sotaque, pelos modos de vestir e de conviver e tinham, todos eles, a sua própria estratificação em função dos rendimentos. Sofriam da segregação social, dos terrestres sobre os marítimos e camponeses, dos marítimos das traineiras sobre os das artes arcaicas e montanheiros. Destes sobre os meramente recolectores.
Tal como nos principais núcleos piscatórios de Portugal (Matosinhos, Nazaré, Sesimbra, Portimão), após o 25 de Abril a maioria da população votou no Partido Socialista, alteou as casas, ocupou os terrenos vagos com construções, desrespeitou a traça urbana tradicional, mudou várias vezes de mobília e conservou a sua qualidade de trabalhadores honrados, sem preocupações de ascensão social. É curiosa a comparação entre aqueles núcleos urbanos, como é sugestivo o distinto comportamento da gente rural, os montanheiros, que preferiram votar PSD, aumentar o património, ascender à política.
Um singelo traço une as populações piscatórias referidas: a tradição dos bilros, complexa arte de tecer rendas de seda, que percorre os lugares ribeirinhos desde La Corunha, na Galiza, até precisamente à Fuzeta – e que se disseminou por terras do Brasil. Praticada por mulheres para acréscimo de rendimento doméstico ou para delícia do lar, por vezes conjugada com a criação do bicho-da-seda pelas crianças da casa, como mandou ensinar o Marquês de Pombal, revela a persistência de uma cultura uniforme ou com a mesma origem. Se ajuntarmos as práticas tradicionais da pesca, que levava os pescadores da Fuzeta para os mares da Terra Nova, bem como os de Ílhavo, recrutados de entre as famílias com tradição da pesca de alto mar, podemos concluir que se trata de uma mesma cultura.
Distintos destes pescadores eram aqueles que viviam em cabanas de colmo (na ilha dá-se o estorno, gramínea empregue na construção das cabanas, mas não em quantidade suficiente para satisfazer a procura, pelo que eram empregues outras variedades; por isso, parece preferível dizer cabanas de colmo). Cabanas deste tipo eram alçadas por todo o território rural, com ligeiras modificações, habitualmente utilizadas por populações sazonais ou pobres. Todavia, na Ria Formosa, os moradores destas cabanas eram, no geral, pescadores de artes de pesca arcaicas, como a merjona. Não conviviam com os pescadores do bacalhau ou da arte da caçada e foram muito dificilmente assimilados após o 25 de Abril, podendo dizer-se que eram socialmente discriminados. Empregavam um sotaque mais lento e pausado, com prolongamento da última sílaba, enquanto o sotaque dos restantes pescadores era acelerado e tendia a cortar a penúltima ou última sílaba. Na fuzeta a população em cabanas terá tido fraca expressão, quando comparada com as proporções em Santa Luzia e em Cabanas de Tavira, mas tratar-se-ia do mesmo povo e da mesma cultura, apresentando idênticos traços.
Na Fuzeta, as gentes das cabanas eram epitetadas de “chotas”, termo que suscitou larga interrogação, embora esteja em desuso. Após alguma pesquisa e constatando que a palavra chota apresenta 7 denotações diferentes, em vários países, afigura-se-nos que a palavra deriva de “chotte”, termo francês para choupana, e que, pelo uso popular em tom depreciativo, derivou para chota. Passou também a designar as pessoas das cabanas, em vez destas propriamente ditas.
Talvez não seja já suficientemente abalizável um estudo que aborde os diferentes sotaques que se empregavam na região: apenas na Fuzeta, 3, que somados aos de Moncarapacho, Olhão, Tavira, Cachopo faziam uma miríade de falas que representavam culturas e povos distintos. O grande feito da democratização após Abril de 1974 consistiu na progressiva integração destas gentes, com abolição das discriminações sociais: anteriormente, um pescador não podia entrar na associação recreativa dos terrestres, um montanheiro não podia casar com a filha de um pescador, um pobre não tinha acesso aos cafés. A cultura tradicional de cada grupo permanecia na memória colectiva através destes sinais plenos de arcaísmos e de raízes, ora quase perdidos.
domingo, 17 de maio de 2009
Contribuição para o estudo do Burguel


O termo burguel surge sob diferentes formas (burgel, bruguel, berguel) na tradição popular do sotavento algarvio, com duplo sentido: faz referência a um sítio no interior de povoações; e reporta gente de baixa condição social. É assim em S. Brás de Alportel, Luz de Tavira e Fuzeta. Ocorre também, como topónimo, em pequenas localidades portuárias da Catalunha. Burgel foi um povoado de Espanha, hoje mera ruína. Todavia, o significado e origem do termo não parecem suficientemente explicados.
O Elucidário de Sousa Viterbo anota “burgel, burgez e burguez” como “o que mora no burgo” e “burgo” como “ajuntamento de casas nas raias ou fronteiras onde residiam efectivas as guardas militares romanas”. No “Dicionário Portátil”, Viterbo define burgo como pequeno arrabalde de uma povoação maior". Todavia, tão denunciados estão os eventuais erros do autor, constituem tais anotações ponto de partida pouco seguro. Leite de Vasconcelos aceita a forma burgel como sinónimo de burguês e admite que burgés e burguês designem de igual modo o morador do burgo, embora por raízes diferentes.
Assume particular interesse constatar que o termo burguel persistiu na tradição oral das gentes dos lugares, sem que tivesse merecido a atenção dos cronistas ou dos estudiosos. As vicissitudes da história não foram bastantes para deixar cair a palavra no esquecimento e, não obstante, não aparece registada nas corografias, nas monografias, nem na maioria dos ensaios etnográficos.
Recentemente, o município de São Brás do Alportel atribuiu a designação de “Pátio do Burguel” a um pequeno recanto da rua Aníbal Rosa da Silva, que sai do centro histórico da vila no sentido Nascente. Porém, esta via foi conhecida antigamente, segundo Estanco Louro, como Rua do Burguel. Nas suas imediações nada parece merecer relevo. O centro histórico sim. Considerando que o centro foi atravessado pela calçada romana e que conta com vários edifícios históricos, suspeita-se que a palavra burguel se refira precisamente ao casario antigo ou a algum aquartelamento. Nesta hipótese, como em tantas outras localidades e em tantos casos, a Rua do Burguel deve significar “rua que vai para o burguel”, sendo burguel um pequeno núcleo antigo. Aqui os moradores da Rua do Burguel foram vistos como gente pobre, sem maneiras, e a própria rua como zona suja, contrastando com o centro histórico. Parece, no entanto, que essa mancha cobria também uma parte do centro histórico.
A Luz de Tavira denomina rua do Burguel a um atalho que liga a EN 125 a algumas hortas. Sabe-se que a igreja manuelina foi construída no que era então um vasto rossio. A povoação deveria aproximar-se mais do centro da aldeia, que já deveria alongar-se pela estrada. Suspeita-se que o burguel coincide com um quintal e ruína murados que ladeiam aquela rua pelo Poente. O local merece alguma arqueologia. Não se dispõem de dados que permitam identificar o burguel com as gentes locais.
Na Fuzeta, burguel não designa uma via ou praça, mas uma zona da povoação, precisamente a mais antiga. Não entrou na toponímia moderna e conserva forte presença na cultura popular. Luís Fraga da Silva assinala que a Fuzeta foi um porto de mar da época romana. Os vestígios desse porto podem adivinhar-se mais das escassas imagens que se conservam do que da actual vila, tão martirizada que está pela construção irregrada. Todavia, é ainda possível propor a classificação e mesmo a aquisição de alguns edifícios (antiga escola primária e casas anexas no largo junto ao quartel da guarda fiscal; 2 casas da cerca que ainda mantêm a traça original (ver fotos)), bem como das calçadas e materiais públicos em pedra. Justifica-se a prospecção arqueológica. Tratava-se de um porto de mar, não de mera pescaria, tinha um forte no ponto cimeiro e aquartelamentos a Poente e a Nascente, entrando as embarcações num recinto protegido. No livro das fortalezas do Algarve, conserva-se um desenho que se pode sobrepor em planta às estruturas ainda conhecidas.
Constata-se que é totalmente errada a ideia de que a Fuzeta foi um primitivo lugar de cabanas. A povoação cresceu em esquadria do porto para Norte, em direcção à igreja reedificada no século XIX, e para Nascente, conquistando terreno à ria. As cabanas, na ilha ou nos arrabaldes, eram exclusivas dos não moradores, aqueles pescadores pobres que, vivendo embora nas imediações, não eram reconhecidos como vizinhos. Alguns foram realojados no Bairro dos Pescadores, construído no rossio Poente. No burguel e na proximidade, viviam gentes discriminadas dos restantes moradores da povoação, tal como em São Brás de Alportel. Os do burguel são “burgueleiros”. O modo como se dá tal generalização ou ocupação do local carece de estudo, como também se impõe a pesquisa sobre o urbanismo, a evolução da malha urbana, notoriamente sujeita a planeamento.
Deve notar-se que cada época transporta um esquema ideológico. Desde o final do século XIX, pretende-se forçar uma ideia de povo homogéneo, autóctone, com as suas bravuras e idiossincracias locais. Mesmo sem querer, grandes pensadores, como o geógrafo e erudito Orlando Ribeiro, foram levados a observar uma única originalidade em cada lugar. Por exemplo, as açoteias de Olhão e Fuzeta. Note-se porém que, ao contrário do que Orlando Ribeiro pôde apurar, o urbanismo de Olhão antigo é diferente do da Fuzeta, que não conta com vielas tortuosas, nem com duplo mirante nas açoteias, aqui cobertas parcialmente por pequenos telhados de quatro águas . As casas retratadas nas fotos acima são únicas e mereceram destaque na história da arquitectura portuguesa.
Está hoje documentado que Olhão foi um porto da época mourisca e que conservou a população muçulmana até à expulsão. Porventura uma parte dos habitantes de Olhão e Fuzeta foram descendentes, já mestiçados, desses longínquos povoadores. Em São Brás do Alportel, ocorreu idêntico processo. Estará o termo burguel relacionado com a antiga ocupação do burgo por antigas populações moçárabes?